Se há um conceito que todos os iniciantes ignoram e que depois lhes come os resultados em silêncio, é o spread. Antes de saberes o que é uma média móvel ou um padrão de velas, devias saber o que é o spread, porque é o custo que pagas em cada operação que abres, sem exceção. Eu opero desde 2013 e posso dizer-te uma coisa com certeza: muitos traders perdem dinheiro não por escolherem mal a direção do mercado, mas por nunca terem percebido quanto estão a pagar para entrar e sair de cada negócio. Vamos arrumar isto hoje.
Aviso: operar em Forex, índices e CFDs envolve um risco elevado de perda de capital. Este conteúdo é educativo e não constitui aconselhamento financeiro. Nunca invistas dinheiro que não estejas disposto a perder.
O que é o spread, afinal

O spread é a diferença entre dois preços que o mercado te mostra a cada instante: o preço a que podes comprar (chamado ask, ou preço de compra) e o preço a que podes vender (chamado bid, ou preço de venda). Estes dois preços nunca são iguais. O ask está sempre um pouco acima do bid, e essa pequena distância entre eles é o spread.
Pensa assim: quando vais a uma casa de câmbio trocar euros por dólares, o balcão compra-te os euros a um preço e vende-tos a outro. Nunca te dá exatamente a mesma cotação nas duas direções, certo? A diferença é o lucro da casa de câmbio. No trading funciona igual. O spread é a forma como a corretora e os fornecedores de liquidez ganham dinheiro em cada operação tua.
Porque é o custo principal de cada operação
Aqui está a parte que quase ninguém te explica no início: pagas o spread logo à entrada. No segundo exato em que abres uma posição, ela já está ligeiramente negativa, porque compraste ao ask (mais alto) mas, se quisesses fechar de imediato, terias de vender ao bid (mais baixo).
Não é uma comissão que aparece numa fatura no fim do mês. É um custo invisível, embutido no próprio preço. Por isso é tão perigoso: muita gente acha que está a operar de graça quando a corretora não cobra comissão fixa, mas a corretora ganha sempre, está só dentro do spread.
- Compras (ask): entras a um preço ligeiramente acima do valor de mercado.
- Vendes (bid): sais a um preço ligeiramente abaixo.
- O resultado: o mercado tem de andar a teu favor pelo menos o valor do spread só para ficares a zero.
Exemplo numérico com EUR/USD
Vou dar-te números concretos, porque é assim que isto faz clique na cabeça. Imagina o par EUR/USD com estas cotações:
- Preço de venda (bid): 1,08540
- Preço de compra (ask): 1,08550
A diferença é de 0,00010, ou seja, 1 pip. Esse é o spread. Se abrires uma posição de compra a 1,08550 e fechares no mesmo instante, vendes a 1,08540 e perdes 1 pip. Numa posição de 1 lote padrão (100 000 unidades), 1 pip vale cerca de 10 dólares. Quer dizer que arrancas a operação com 10 dólares negativos só pelo spread.
Parece pouco? Multiplica. Se fizeres 10 operações por dia, são 100 dólares de custo diário só de spread, antes de pensares em ganhos ou perdas pela direção do mercado. Num mês de 20 dias de trading, dão 2000 dólares. É por isto que dou tanta importância a este tema quando ensino como aprender Forex de forma séria.
Spread fixo vs spread variável
Existem dois tipos de spread, e convém saberes a diferença antes de escolheres onde operar.
Spread fixo: a corretora garante o mesmo valor de spread independentemente das condições de mercado. Por exemplo, 2 pips no EUR/USD a qualquer hora. Dá-te previsibilidade, sabes sempre quanto vais pagar. A desvantagem é que costuma ser mais largo em média, porque a corretora absorve o risco das oscilações.
Spread variável: o spread muda conforme a liquidez e a volatilidade. Em momentos calmos pode ser de 0,2 pips no EUR/USD, mas em notícias importantes pode disparar para 5, 10 pips ou mais. É o tipo mais comum nas corretoras com modelo ECN ou STP, que repassam as cotações reais do mercado. Em condições normais sai mais barato, mas tens de estar atento aos picos.
Não há um melhor em absoluto. Para quem opera fora de notícias e com calma, o variável tende a compensar. Quem opera muito colado a eventos pode preferir a previsibilidade do fixo.
O que alarga o spread
O spread não é uma constante. Ele respira com o mercado. Há três situações em que ele alarga de forma quase garantida, e eu evito operar exatamente nesses momentos a não ser que tenha um plano específico para isso:
- Notícias de alto impacto: decisões de taxas de juro do BCE ou da Fed, dados de emprego dos EUA (NFP), inflação. Nestes segundos a liquidez seca e o spread pode multiplicar por 10 ou 20.
- Baixa liquidez: à noite na Europa, quando os mercados americanos já fecharam e os asiáticos ainda mal abriram, há menos compradores e vendedores, logo o spread alarga.
- Fim e abertura de sessão: na transição entre sessões, sobretudo perto da meia-noite na hora do servidor da corretora, o spread costuma abrir bastante.
Já vi traders entrarem confiantes 30 segundos antes de uma decisão da Fed e levarem um spread de 15 pips no EUR/USD. A operação nasceu morta. Por isso a gestão de risco no trading também passa por saber quando não estar no mercado.
Porque o spread mata o scalping
O spread afeta toda a gente, mas penaliza brutalmente quem faz scalping, ou seja, quem entra e sai em segundos ou minutos à procura de poucos pips de lucro de cada vez.
Faz as contas comigo. Se o teu objetivo é ganhar 5 pips por operação e o spread é de 1,5 pips, estás a entregar 30% do teu alvo logo à entrada. Se o spread for de 2,5 pips, entregas metade. Para um trader de longo prazo que procura 200 pips num swing trade, esse mesmo spread de 1,5 pips é irrelevante, menos de 1% do alvo.
É por isto que para scalping o spread baixo não é um luxo, é uma condição obrigatória. Quanto mais curta é a tua operação, mais o spread pesa em percentagem do teu objetivo.
Como escolher corretora pelo spread
O spread é um dos critérios mais importantes na escolha da corretora, mas não o único. Quando ajudo alguém a decidir, olho para isto:
- Spread médio nos pares que vais operar: compara o EUR/USD, que deve andar perto de 0,5 a 1 pip nas boas corretoras com conta competitiva.
- Comissão à parte: algumas contas têm spread quase zero mas cobram comissão por lote. Soma as duas coisas para teres o custo real.
- Comportamento do spread em notícias: uma corretora honesta mantém spreads razoáveis; uma má dispara para valores absurdos sempre que pode.
- Regulação e execução: spread baixo não serve de nada se a execução for lenta ou se houver requotes constantes.
Se queres aprofundar este tema antes de abrires conta, escrevi um guia dedicado sobre a melhor corretora de Forex e outro sobre o que são CFDs, que te ajuda a perceber o produto que estás realmente a negociar.
Perguntas frequentes
O spread conta para os meus lucros e perdas?
Sim, sempre. O spread já está descontado no resultado da tua operação. Quando vês o teu lucro ou prejuízo flutuar, o custo do spread já lá está embutido, porque entraste ao ask e vais sair ao bid.
Qual é um spread bom no EUR/USD?
Em condições normais de mercado, considero competitivo um spread entre 0,5 e 1 pip no EUR/USD numa conta sem comissão, ou perto de zero numa conta com comissão à parte. Acima de 2 pips de forma constante, procura melhor.
Posso evitar pagar o spread?
Não. Pagar o spread faz parte de operar nos mercados, é o custo de acesso. O que podes fazer é reduzi-lo escolhendo uma boa corretora, evitando operar em momentos de baixa liquidez e ajustando o teu estilo para não depender de movimentos minúsculos.
O spread é igual em todos os pares?
Não. Os pares mais negociados, como o EUR/USD, têm spreads baixos por causa da enorme liquidez. Pares exóticos, ouro ou índices podem ter spreads muito maiores. Antes de operar um instrumento novo, verifica sempre o spread típico dele.
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